Depois virá o derrame é um livro de poesia que se constrói como fluxo contínuo de memória, violência e delírio urbano. Reunindo textos de momentos distintos Drão de Roma [Dezembro Caiu] (2006) e o poema que dá título ao livro (2026) , a obra não se organiza como coletânea, mas como insistência: uma mesma experiência retorna sob novas formas, sempre mais intensa e desagregadora. No centro do livro está a cidade de Salvador, apresentada não como cenário, mas como corpo vivo ferido, explorado e progressivamente esvaziado de si. A experiência pessoal do autor, como o episódio do roubo de sua câmera no Pelourinho, funciona como gatilho simbólico: perder a imagem é também perder a memória, a mediação com o mundo. A partir daí, o poema se organiza como tentativa de reinscrever essa perda. A linguagem é marcada pelo excesso e pela fragmentação. Repetições, cortes bruscos e acúmulo de imagens criam um ritmo convulsivo, que aproxima o texto de um colapso controlado. Há um evidente traço barroco, tanto na ornamentação quanto na tensão entre o sagrado e o profano: igrejas, orixás, rituais e corpos se misturam em um mesmo campo simbólico, onde não há conciliação, apenas atrito. O corpo, aliás, é elemento central. A cidade é constantemente corporalizada vísceras, sangue, sexo, secreção , como se a linguagem buscasse resistir à abstração transformando tudo em matéria sensível. Nesse sentido, o erotismo e a violência não se opõem, mas se contaminam, revelando uma experiência limite. No poema Depois virá o derrame, essa dinâmica se intensifica e ganha dimensão mais explicitamente política. A cidade aparece como mercadoria, submetida à exploração turística, à desigualdade obscena e à lógica do capital. Ainda assim, o eu lírico não se coloca fora desse processo: sua fala oscila entre pertencimento e exclusão, amor e crítica, implicação e distanciamento. O derrame do título funciona, assim, como chave formal e temática. É colapso, transbordamento, esgotamento: da cidade, do sujei
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