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Descartes e o ódio à escrita

(Cód. Item 1517311745)

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Ao longo deste livro, a nocao de limite, tao cara a Descartes manifesta tanto no gesto de tracar, de uma vez por todas, as fronteiras do que pode ser clara e distintamente conhecido quanto nesse outro movimento, dependente do primeiro, mas nao redutivel a ele, de escolher o que pode ou nao ser escrito publicamente , e visada a partir do interior de seu proprio pensamento. Trata-se entao de habitar essa terra de ninguem que e o proprio limite, espaco sem extensao que nos forca a cambiar continuamente entre os dominios que ele divide, o pensavel e o impensavel, o dizivel e o indizivel. Permanecer no limite e fazer nele reverberar os signos que o compoem nos levara a explorar tambem esse outro signo, o odio, entendido como um esquema afetivo de subjetivacao. Que o odio seja tomado nao como uma causa psicologica que explica a relacao de Descartes com a escrita, mas, antes, como sendo, ele mesmo, um signo, representado em seus escritos ao lado de outros, determina o metodo deste estudo, restrito a imanencia do texto e comprometido com a recusa de qualquer abordagem referencialista ou causal. Nenhuma realidade para alem ou aquem dos signos a vida de Descartes, suas intencoes ao escrever isto ou aquilo, o contexto social de sua producao ou a realidade descrita por suas teses filosoficas sera usada, ao longo destas paginas, como principio heuristico. Paradoxalmente, porem, a decisao de permanecer no interior do pensamento de Descartes nos forcara a percorrer seus impasses e fissuras, sem sintese possivel. O interior, na verdade, nunca foi dado nem nunca existiu como um todo autocontido. Entre ele e seu fora, incontaveis fronteiras multiplicam-se.