Em 'O Eterno Marido', obra apontada como uma espécie de Madame Bovary russa, Dostoievski realiza um romance em que o grotesco é a nota predominante. Sua narrativa concentra-se em dois pólos: a descrição da perda de dignidade do marido traído e sua sutil vingança. Através das cartas deixadas pela esposa que falecera, o ingênuo e inocente Pavel Pavlovitch Trussotski descobre que ela se entregara a inúmeros outros homens. Partindo desta revelação, o autor narra, em seguida, as relações posteriores do marido com um dos amantes da mulher, Veltchaninov, presumivelmente pai da criança que Pavel sempre supusera filha sua. Henry Troyat, biógrafo e ensaísta francês que estudou em extensão e profundidade a vida, a obra e a personalidade de Dostoievski, classificou o romance 'O Eterno Marido' como "um admirável condensado da arte dostoievskiana". Outros críticos detectam nesse texto, por exemplo, "incidentes emprestados de O Idiota". Trata-se, em suma, de livro que dá ao leitor uma visão já precisa do universo inventado pelo genial ficcionista russo - universo a que, de modo mais esmiuçado e de forma mais penetrante, daria cabal configuração em outros livros seus, os de maior fama e projeção.